sento-me e tiro o novo livro da mala. Seguro-o e afago-o apreciando-lhe a macieza. Faço sempre isso, que estranho, como se para começar a ler tivesse de o conhecer primeiro pelo tacto. (8 anos e eu nem me lembrava)
"(...) Dizem que morreu. Mas as pessoas, já se sabe, dizem muitas vezes disparates. (...)" * E lembrei-me. E a lembrança rasgou-me por dentro, desferiu-me nas entranhas golpes impiedosos de espada afiada. Tudo desfeito, tudo para fora. Tudo a querer-me sair pelos olhos, nariz, boca, em convulsões de soluços zangados pelos 8 anos, não, pela lembrança repentina dos 8 anos. Por me ter esquecido e lembrado assim. (seria bom esquecer?) E a tentativa de segurar tudo cá dentro, tanta gente à minha volta, não posso, não quero. Tanta gente enfiada nos seus próprios pensamentos, a tentarem quem sabe, nunca se sabe, segurar também as próprias entranhas para que ninguém lhes veja as cicatrizes. Lhes conheça as mágoas. As dores. A fraqueza. 8 anos. (saudades)
* parte da dedicatória, em "A mulher em branco" de Rodrigo Guedes de Carvalho